Com mudanças no clima, vinícolas do RS buscam adaptar produção
Monitoramento climático e uso inteligente de dados estão entre as iniciativas para promover uma produção mais sustentável
Os sistemas de produção com menos impacto ambiental vêm crescendo no setor vitivinícola nacional. Atualmente, a qualidade do vinho na taça passa pela tradição e tecnologia, mas tem na sustentabilidade um imperativo.
“Com os efeitos das mudanças climáticas, a forma de produção tem que ser adaptada. Essa conjuntura vem embasando a tomada de decisões no âmbito da viticultura”, ressalta Gabriel Almeida da Silva, analista de Agronomia do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS).
Segundo Gabriel, com base em diagnósticos da emergência climática, o setor vem planejando ações de curto, médio e longo prazos. “A sustentabilidade é uma tendência que envolve várias camadas e exige ações que promovam otimização dos recursos naturais e estratégias que resultem em melhorias que vão muito além do marketing focado no consumidor”, avalia.
Entre as ações do Consevitis está o trabalho de adequação e qualificação técnica ao protocolo internacional Primary Farm Assurance (PFA) do Globalg.a.p., que certifica produtores, áreas e empresas alinhadas a normas globais de boas práticas agrícolas.
Gabriel comenta que, entre os resultados do processo, está a inserção de 211 produtores gaúchos de uva nos grupos certificados e 1.204,01 hectares contemplados no PFA. A ação foi realizada em 2025, em parceria com o Sebrae e a UPL, multinacional do segmento de defensivos, e as certificações foram obtidas em 2026, abrindo caminho para ações como agricultura regenerativa e produção de uva de baixo carbono na região.
Vinícolas
Vinícolas e cooperativas também atuam para tornar a viticultura sustentável uma realidade. A Salton, com sede em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, afirma que adota um modelo de produção que combina inovação, uso inteligente de dados e responsabilidade ambiental.
Segundo a empresa, informações coletadas em tempo real ajudam a orientar o manejo das videiras: temperatura, umidade, radiação solar e outros dados são registrados por uma estação meteorológica posicionada no centro dos 175 hectares de vinhedos da Azienda Domenico, espaço da Salton em Santana do Livramento (RS).
A iniciativa integra um pacote de ações de viticultura de precisão e permite o controle preventivo de doenças fúngicas, como o míldio – principal ameaça às videiras -, além da redução de aplicações desnecessárias de fungicidas. A tecnologia é combinada à fertirrigação inteligente e ao manejo sem herbicidas, viabilizado pelo uso de cobertura gramínea.
O banco de dados climáticos da Salton também vem sendo utilizado por pesquisadores de universidades gaúchas, que buscam compreender como o clima influencia a qualidade tecnológica das uvas.
“Os estudos com base no cruzamento entre registros climáticos e indicadores de qualidade de safra beneficiam toda a viticultura brasileira”, observa Junior Marques, coordenador de Viticultura e responsável pela gestão geral da Azienda Domenico.
Na Cooperativa Vinícola Aurora, também sediada em Bento Gonçalves, é desenvolvido um trabalho para minimizar os impactos das mudanças climáticas em 11 municípios da Serra Gaúcha onde há cooperados. Maurício Bonafé, gerente agrícola da cooperativa, explica que entre as iniciativas estão a adoção de técnicas de cultivo, desde a época de dormência do vinhedo, no inverno, até a colheita das uvas, no verão.
“Manejo de cobertura de solo, minimizando o impacto de chuvas torrenciais na perda da camada fértil do solo; estudos referentes a escolha de melhores variedades de uvas para diferentes microclimas; e a instalação de estações climáticas em diferentes microrregiões dos nosso cooperados, que são capazes de prever doenças, tornando mais assertivo o trabalho do produtor rural, estão entre as ações”, pontua. A cooperativa atua ainda na definição de metas de mitigação de emissão de GEE e na gestão eficiente dos recursos hídricos.