COP30 em Belém, destacando a importância da educação climática e a mobilização social.

O que a COP30 revelou sobre educação climática no Brasil

Talvez o maior aprendizado tenha sido reconhecer publicamente, em esfera internacional, que educação climática sem justiça social estrutural é apenas outra promessa

Seis meses atrás, quando a COP30 ainda era apenas uma promessa de mudança sobre o horizonte de Belém, um dado preocupante circulava entre educadores e pesquisadores: 92% dos professores brasileiros consideravam a educação climática muito importante, mas 38% não se sentiam seguros para ensinar seus fundamentos científicos. Mais perturbador ainda, 60% dos docentes não sabiam sequer se seus projetos político-pedagógicos contemplavam o tema. 

Era o retrato de um abismo — não apenas entre o que reconhecemos como urgente e o que efetivamente fazemos nas salas de aula, mas entre a intenção institucional e a prática cotidiana de quem realmente ensina. O tema foi amplificado com a divulgação de uma pesquisa da Frente Parlamentar Mista da Educação que apresentava que apenas um em cada 10 estudantes brasileiros sabe o que é a COP30. Não é falta de informação superficial — é desconexão profunda entre a transformação institucional que ocorre no topo e a realidade das crianças que deveriam ser beneficiárias dessa transformação. Nas regiões mais pobres, esse número cai ainda mais dramaticamente. A região Norte, onde a conferência acontecia, teve 27% de alunos informados. O Nordeste, historicamente negligenciado em políticas educacionais, ficou com apenas 4%. 

O sentimento foi como preparar as estruturas arquitetônicas de um prédio enquanto a maioria dos moradores sequer sabe que a construção começou — e pior, não tem convite para entrar.

Mas a COP30 também trouxe ganhos, muitos deles significativos. Talvez, o mais importante, foi colocar pela primeira vez a educação climática no centro da agenda global das conferências climáticas, aprovando 29 decisões que consolidam essa temática como prioridade internacional. 

Houve avanços estruturantes que não podem ser minimizados. O Brasil lançou a PNEAE (Política Nacional de Educação Ambiental Escolar), um documento que transformou educação climática de tema periférico e constituiu uma rede de 346 agentes territoriais de educação ambiental distribuídos pelos estados, além da oferta de cursos online gratuitos de 20 horas. Houve também a criação do Guia de Ações Educacionais em Resposta a Emergências Climáticas, um documento que oferece orientações práticas  sobre como construir resiliência em escolas e como planejar aulas em contextos de desastres climáticos. O guia significa exigência formal de que escolas apresentem planos de resiliência em seus projetos pedagógicos, não como sugestão, mas como mandato. Tudo isso é inédito e representa movimento institucional real.

O aspecto que talvez mais surpreendeu durante a COP30 foi o reconhecimento silencioso de que educação formal sozinha, dentro de salas de aula, não resolve nada.

O movimento da Carta da Terra atuou como mobilizador ético e educativo, incentivando ações de educação ambiental e climática, especialmente por meio de eventos, oficinas e articulações com organizações da sociedade civil. Um exemplo é o programa “Letramento Climático na Educação”, promovido pelo Carta da Terra Internacional no Brasil, que visa orientar educadores sobre como abordar temas climáticos nas escolas e comunidades.

Ao mesmo tempo, durante a conferência, cerca de 24 mil pessoas foram qualificadas em tecnologias de energia renovável — energia solar, eólica, hidrogênio verde, mobilidade elétrica — pela Rede Federal de Educação Profissional. Não é uma capacitação teórica que termina com aprovação em prova. É uma formação para gerar emprego real em bioeconomia amazônica. Dois mil professores foram envolvidos em 135 municípios diferentes. As instituições federais de educação profissional criaram usinas de geração de energia renovável que funcionam, economizam recursos e educam simultaneamente através da experiência prática. A educação profissional foi posicionada como infraestrutura de transição econômica, não como disciplina escolar adjunta. Isso marca uma diferença fundamental. Significa que a transformação climática não será apenas uma questão apenas de consciência, mas de economia: quem será treinado para os empregos verdes? A resposta brasileira, oferecida em Belém, foi: vamos criar empregos, não apenas processos de conscientização.

O lançamento de 57 projetos da Rede Federal de Educação Profissional reunidos em livro bilíngue, organizados de acordo com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, apresentavam iniciativas como hortas escolares, compostagem operacional, restauração ambiental real, laboratórios de tecnologia renovável que funcionam. Educadores e estudantes apresentavam trabalho concreto, não apenas intenções. Isso importa porque marca a diferença entre política de papel e transformação prática.

Um dado perturbador chegou sutilmente durante a conferência: pesquisas revelaram que onde há maior vulnerabilidade climática, há também maior concentração de população negra e periférica. A PNEAE reconheceu isso explicitamente na letra da lei, destacando “atenção à justiça climática e apoio aos municípios, territórios e escolas que enfrentam maior vulnerabilidade climática e socioambiental”. Mas “reconhecer” na política não muda estruturas de financiamento. Sem investimento real em infraestrutura — telhados, climatização, áreas verdes, laboratórios, materiais —-, uma política linda em papel permanece virtualmente incapaz de transformar realidades. É reconhecimento que não vira recurso. É justiça que permanece discursiva.

O que a COP30 sinalizou, portanto, é que o Brasil construiu estruturas institucionais onde antes havia vazio. Criou políticas de Estado onde havia apenas convicção dispersa. Mobilizou recursos financeiros para educação profissional que gera emprego real. Trouxe mulheres para o centro da agenda climática educacional. Lançou métricas globais que reconhecem a educação climática como competência essencial. Tudo isso importa e não deve ser descartado como simbólico. Talvez o maior aprendizado da COP30 tenha sido reconhecer publicamente, em esfera internacional, que educação climática sem justiça social estrutural, sem infraestrutura real, sem participação genuína de mulheres e povos tradicionais nas decisões que a moldam, sem investimento diferenciado para comunidades vulneráveis, é apenas outra promessa que o Brasil faz no palco internacional.

Fonte: NEXO

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